Homem primitivo

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[Música] [Música] [Música] No programa Expedições de Hoje, uma viagem no tempo, você vai conhecer o que os arqueólogos estão descobrindo sobre a vida do homem das cavernas do Brasil 10.000 1 anos antes de Cristo. [Música] Vamos mostrar as pesquisas de importantes arqueólogos brasileiros feitas em épocas diferentes em várias regiões do país. [Música] As marcas deixadas pelos homens pré-históricos e a belíssima arte da pintura rupestre. [Música] As novas descobertas em São Raimundo, no Nato, no Piauí, feitas pela arqueóloga Nied Guidon, e a criação do Museu do Homem Americano. [Música] Você vai conhecer a região arqueológica de Serranópolis, no sul de Goiás, que tem uma das maiores concentrações de vestígios do homem pré-histórico. [Música] o ecoturismo e ainda a descoberta do esqueleto humano mais antigo de todas as Américas. [Música] Você já imaginou voltar no tempo pesquisando e descobrindo vestígios das populações pré-históricas? É exatamente isso que os nossos arqueólogos estão fazendo, mergulhando na vida das populações que habitaram as grutas e cavernas do Brasil. [Música] Essas cenas estão perdidas no tempo. Elas mostram bandos de homens que já habitavam o Brasil 12.000 anos atrás. Como eram esses homens? De onde vieram? Como viviam? Essas imagens são uma reconstituição, é claro, mas nos dão uma ideia dos grupos nômades de caçadores e coletores da nossa pré-história. Ja. [Música] [Música] Os arqueólogos afirmam que o homem veio da Ásia e ocupou as Américas. Em todo o território brasileiro, os pesquisadores têm encontrado restos de acampamentos dessas populações, com datas que vão até 46.000 anos atrás. Em 1977, começamos a filmar as escavações da equipe do arqueólogo Ondemar Dias, na região de São Pedro da Aldeia, litoral do Rio de Janeiro. Acompanhamos as etapas dos trabalhos, inclusive a remoção de esqueletos e coleta de carvão de fogueiras para testes de laboratório. Em 86, viajamos com a equipe do arqueólogo Altair Sales Barbosa, à região de Morro Furado, no interior da Bahia. Você vai ver agora trechos do vídeo que fizemos. As pesquisas da equipe do Altair Sales Barbosa aqui em Morro Furado começaram nesse sítio, neste corte. Atair, conta pra gente como é que foi esse trabalho. Pelas pesquisas que desenvolvemos na região do Morro Furado, podemos ver que a região foi intensamente ocupada durante milhares de anos por sucessivas culturas, como podemos ver por essa escavação que realizamos aqui. Por exemplo, aqui em cima, nós temos uma data de 1000 anos antes do presente. A medida que nós somos aprofundando na escavação, nós somos conseguindo data cada vez mais antiga. O impressionante desse corte é que as datas se apresentam numa sequência. Por exemplo, aqui nós temos 7700, aqui nós já temos 11.000 anos, aqui embaixo nós temos 18.570, aqui 21.000, aqui 26.600. E aqui na base do corte 27.000 anos antes do presente. Nesses paredões você encontra uma grande quantidade de grutas e abrigos que foram ocupados durante milhares e milhares de anos. por populações pré-históricas. Quando os arqueólogos chegaram a morro furado, exploraram as grutas e abrigos com restos de habitação, foi como se aquele lugar tivesse parado no tempo. Eles estavam entrando na casa do homem pré-histórico. Nas paredes de pedra, pinturas por toda parte. [Música] Nas camadas mais profundas das escavações, o professor Altair Sales Barbosa e seus colaboradores descobriram cinzas de fogueiras, ossos de animais e moluscos carbonizados com a data surpreendente de 43.000 anos atrás. Esse molusco foi enviado para datação pelo método carbono 14 e acusou a idade de 43.000 1 anos antes do presente. Todavia, essa data para ser comprovada necessita de uma série de estudos complementares, mas nós acreditamos que a sua comprovação é uma questão de tempo. A quantidade de documentos existentes hoje na arqueologia sul-americana e sobretudo no que nós dispomos para o Nordeste do Brasil não deixam a menor dúvida sobre a antiguidade no homem na América. Nós temos que deixar de lado esta polêmica estéril, pensar que a ciência avança sempre, que novas tecnologias permitem fazer passos novos em direção a novas descobertas. E também nós temos que deixar de considerar com um certa menospreo dados considerar eh descobertos por equipes brasileiras que hoje já podem ser levadas em consideração no mundo científico com toda a certeza e com toda a segurança. A arqueologia em áreas tropicais está apenas começando. Muita coisa ainda pode ser descoberta. E as pesquisas em torno da antiguidade do homem aqui ainda vão tomar muito tempo não só dos arqueólogos atuais, como também das futuras gerações de pesquisadores. [Música] A pesquisa de populações pré-históricas é fascinante. Quando menos se espera, aparecem novos vestígios. Foi exatamente o que aconteceu com o projeto do gasoduto Bolívia Brasil em Mato Grosso do Sul. Equipes de trabalho da Petrobras localizaram 14 sítios arqueológicos no caminho das obras. A ideia inicial do gasoduto é transportar 8 milhões de metros cúbicos desse gás não poluente, o que equivale a 100.000 barris de petróleo por dia. O gasoduto começa em Rio Grande, cidadezinha próxima a Santa Cruz de Lacierra, na Bolívia. Passa por Corumbá, atravessa o Pantanal e depois desce até São Paulo, onde se divide em dois. Uma parte vai para Porto Alegre e a outra para Belo Horizonte. São ao todo sete estados na rota do gás natural. Este mega projeto binacional terá 3150 km de tubulações enterradas a 1,5 m de profundidade, praticamente sem afetar o meio ambiente. Entre os 14 sítios arqueológicos encontrados, dois deles estão no Pantanal. Pela sua importância, os pesquisadores acharam melhor não mexer e fazer pesquisas com mais tempo. A Petrobras fez então um desvio do gasoduto para não destruir esse patrimônio. Através de convênio da Universidade Federal de Mato Grosso com a Petrobras, outros sítios localizados em Mato Grosso do Sul foram estudados. Durante dois meses, os arqueólogos fizeram escavações e trabalhos de salvamento. Foram encontrados objetos de cerâmica de índios tupiuarani que viveram na região de Terenos antes de Cabral chegar. Em Três Lagoas, os achados são mais antigos. Utensílios de pedra lascada e polida com datação de 1000 anos antes do presente. [Música] Este projeto é um bom exemplo de preservação da cultura indígena e de resgate da pré-história brasileira. [Música] Quem poderia imaginar que é no sertão do Piauí que está um dos mais bem cuidados parques nacionais do Brasil com uma complexa estrutura de primeiro mundo. O Parque Nacional da Serra da Capivara fica em São Raimundo, Nonato e abrange uma área de quase 130.000 haar. O clima semiárido não impediu o trabalho dos arqueólogos que vieram estudar a região a partir dos anos 70. São 46 sítios arqueológicos, entre os quais 360 apresentam pinturas rupestres. Mas estes números não são definitivos. A todo momento são descobertos novos sítios. Em 1979, o Parque Nacional foi criado para proteger esse valioso patrimônio e amostras de Caatinga, praticamente virgens. Em 1991, a região da Serra da Capivara foi considerada pela UNESCO patrimônio cultural da humanidade. O parque é administrado pelo IBAMA em parceria com a Fundação Museu do Homem Americano. O Parque Nacional da Serra da Capivara, tem como sua criadora a arqueóloga Nied Guidon, uma das mais famosas e importantes arqueólogas do Brasil, reconhecidas mundialmente. E Nied, qual a importância desses achados aqui na Serra da Capivara, no Parque? A importância desses achados do Parque Nacional resultam principalmente do grande número de sítios que nós temos com pinturas, pinturas que são extremamente narrativas e que nos permitem estudar os costumes desses povos que aqui viveram. Nós fizemos escavações nesses abrigos debaixo das pinturas e eh para poder datá-las e conseguimos encontrar vestígios extremamente antigos da presença humana na região. Neste sítio que é a toca do buqueirão da pedra furada, nós temos datações de carbono 14 até 50.000 anos atrás. O homem chegou nessa região há muito, muito tempo atrás, se desenvolveu, povoou uma imensa região do Nordeste e essa presença humana foi contínua até a chegada dos europeus, dos colonizadores. O que mais chama a atenção no parque são as pinturas rupestres. Rupers quer dizer pedra em latim. Daí o nome da arte que o homem imprimiu em cavernas do mundo inteiro. Só nessa região da Serra da Capivara são mais de 35.000 1 figuras pintadas nas paredes de Arenito. Essa concentração é a mais importante que nós temos hoje, conhecida no mundo pelo número de figuras, pela qualidade das figuras, justamente por essa possibilidade que essas figuras nos dão de estudar a essas sociedades pré-históricas. [Música] Nas pinturas mais antigas, com cerca de 12.000 anos, a única cor utilizada é o vermelho. Por volta de 8.000 a 7.000 anos, aparecem o amarelo, branco, cinza e preto. Essa tinta vem da mistura de óxido de ferro, com exceção do preto, que é obtido através de ossos queimados e moídos. Interessante. Essas pinturas são muito bonitas. Esse conjunto aí é um quadro maravilhoso, né? Esse daqui é o mais fotografado que tem no Parque Nacional. fotograf. O ecoturismo cultural é novidade e aparece como alternativa de trabalho para a população da região. O hotel Serra da Capivara foi o primeiro a ser construído e oferece conforto numa região castigada pelo clima seco. Esse Parque Nacional ele ele tá funcionando nos moldes de primeiro mundo, né? O parque já tem uma estrutura que permita que o turista fique em segurança, mas que esse patrimônio cultural também eh esteja protegido, né? Trabalhamos muito com excursões de universidades e colégios do Nordeste, além do público estrangeiro. É uma experiência muito interessante para nós alunos de história, quando conseguimos aliar a questão da teoria, né, a questão da vivência, da experiência em loco. A gente fica encantado que encontra aqui essas pinturas, essas paisagens lindas. Realmente é um impacto muito grande da questão emocional da pessoa. Eu pessoalmente fiquei tonta. Com grandes passarelas e luz artificial realçando as pinturas, o parque se confundiria com um grande museu de arte moderna, se não fosse por essa arte feita a milênios, as pinturas do homem primitivo brasileiro. [Música] Do conforto e da bela estrutura das passarelas, pegamos a estrada. Comendo poeira debaixo de um sol escaldante, nos juntamos à equipe da arqueóloga Nied Guidon. Na estrada para o sítio da Toca da Estrema, algumas árvores bloqueam a passagem. A arqueóloga nos ensina que não basta escavar, tem que abrir o caminho. [Música] Este abrigo que a toca da extrema, tem pinturas da tradição nordeste e da tradição agreste. É muito importante por por essa razão, porque nós podemos ver a sucessão dos dois das duas tradições e depois todos esses blocos que estão aqui estão cobertos de gravuras. Essas gravuras estão sendo destruídas pela ação dos caçadores. Eles salgam a carne aqui em cima e o sal tá atacando a pedra. Nós fizemos uma sondagem aqui e as camadas arqueológicas passam debaixo desses blocos. Quer dizer, eles caíram sobre restos de ocupações humanas. Esses blocos têm então que ser retirados daqui primeiro para preservá-los. Nós queremos levá-los pro museu porque aqui eles vão ser destruídos integralmente e segundo para permitir que se escave totalmente esse sítio. [Música] No caminho da toca do vento, o calor ia se tornando insuportável e só o que se via era essa vegetação seca onde o cacto predomina. De repente, uma surpresa, um pequeno Asis. As pesquisas realizadas nos afloramentos de Calcário provam que não foram apenas vestígios do homem que marcaram a pré-história no Piauí. Aqui no Parque Nacional da Serra da Capivara, os especialistas encontraram fóssimais gigantes que viveram nesse local até cerca de 12.000. 1 anos atrás. Isso aqui é o dente do apoio most. É um tipo de elefante que era enorme que viveu aqui nesse período. Aqui nós temos dois ossos de preguiça gigante. Isso aqui é uma mandíbula do eremontério. É um animal que media ou menos 8 m de comprimento. O osso do pé da preguiça gigante do Eremotério, que era um animal muito grande, aliás, um dos maiores animais que nós tínhamos aqui. A preguiça gigante pesava mais de uma tonelada, era 20 vezes maior do que a preguiça que conhecemos hoje. Agora, dentre esses animais, o que se destaca mais é o tigre dente de sabre, que é um felino. Ele parece com como uma onça, um tigre mesmo, comprido. E foi encontrado aqui dois incisivos, que é esse aqui, um deles. E aqui é uma parte de sua de sua mandíbula, a parte inferior. Então, esse animal ele era o predador natural da região, ele comia os outros animais. Um dos destaques do trabalho dos arqueólogos é o Museu do Homem Americano. Em seus painéis expostos, em grandes salas, estão algumas gravuras belíssimas que exemplificam as tradições culturais do homem primitivo do Brasil. Aliando Preservação da Natureza com trabalho social, a Fundação Museu do Homem Americano está dando um exemplo. Em Plena Catinga cresce um projeto de grande envergadura que inclui pesquisas arqueológicas e trabalhos que dão renda às comunidades e ainda duas escolas. A fundação já recebeu dois prêmios Henri Ford de conservação ambiental e do UNICEF pelo trabalho social com jovens da região. A região é uma região do Nordeste típica, pobre, com todos esses problemas decorrentes da seca, encontramos que a única solução seria promover o desenvolvimento econômico e social da região para que houvesse uma oferta de trabalho, para que as pessoas não fossem obrigadas para se alimentar, a depredar a natureza. E ao mesmo tempo nós estamos preparando o parque para que se desenvolva um ecoturismo cultural que permita a criação de hotéis, a manutenção de restaurantes, que é também uma excelente maneira para criar trabalho para o pessoal da região, para que nós possamos definitivamente eliminar os problemas de depredação da natureza. De todo esse processo aí, que que você mais gosta de fazer? Gosto de decapar a tincheira. Como é que que é decapar? É, a gente usa a colher para fazer isso, pincel e a paz para colocar no balde e do balde vai pra peneira para ver se tem algum vestígio que escapou daqui. O que tá se buscando é fazer com que o parque, né, a arqueologia e o ambiente seja o motor de desenvolvimento da região, né, principalmente pras comunidades que moram aqui, que moram no entorno do parque. Que que você acha disso? Acho muito bom esse serviço e quero ser no futuro, quero ser um arqueólogo. Não é apenas a arqueologia a única especialidade que se pode obter nos cursos da Fundação Museu do Homem Americano. Aqui a gente vai, derrete a cera, aí depois a gente traz para aqui, pra fundação, né? Acerta. Depois de certa a gente tira o tamanho da vela. É um tamanho grande, que é esse, pequena, e a do pote, que é essa aqui. A linha da cerâmica é toda de utilitários, né? Então, pratos, jarras, travessas. Outra atividade de sucesso é a apicultura, que envolve 200 famílias. O projeto socioambiental está completando 7 anos, mas nem sempre foi fácil conseguir a adesão das pessoas do local. Uma dificuldade, por exemplo, da região é as pessoas acreditarem que alguma coisa do semiárido pode viver. É o estereótipo da seca mesmo, né? Que nada dá, que nada funciona. E você reverter esse papel é muito difícil. E todo o trabalho social que a gente faz, desde a educação até as atividades produtivas, vai nesse sentido de mostrar que dá para você ter uma sobrevivência digna. Além do ensino formal, as duas escolas da fundação fazem a reciclagem do papel que é jogado no lixo. Primeiramente a gente bota dentro da bacia e bota água, depois molha no liquidificador. Aí pega e molha o capinho, depois coloca na prensa. Ah, bota na prensa para tirar o excesso de água. É para tirar o excesso da água. Prensa, depois coloca para secar na calçada. Você gosta desse trabalho, Danela? Gosto. A gente montou um projeto pedagógico aonde a educação ambiental tá dentro do ensino formal. Em vez de usar uma cartilha, por exemplo, que fale vovô viu a uva ou aí a gente parte da da alfabetização com situações do dia a dia deles e com situações do dia a dia do parque, que é onde eles vivem e é da onde eles têm que tirar a sobrevivência deles. é um exemplo de que trabalho, ensino e preservação da natureza podem ser fortes aliados. Essas pessoas estão provando que é possível conquistar dignidade e qualidade de vida. Se o homem primitivo deixou vestígios tão marcantes aqui no interior do Piauí, as populações que vivem na região hoje também podem deixar sua marca, preparar o Parque Nacional da Serra da Capivara para as futuras gerações. Deus. [Música] [Aplausos] Serranópolis fica a Sudeste de Goiás. A área arqueológica se estende por mais de 30 km ao longo do Vale do Rio Verde, afluente do Paranaíba, um dos formadores do rio Paraná. São seis núcleos de pesquisa espalhados que formam o conjunto de sítios da pré-história mais importante do Brasil. [Música] Saímos da pousada das Araras direto para conhecer os abrigos dos homens primitivos que ficam bem próximos daqui. Grupos de visitantes chegam durante o ano todo, caminham pelas trilhas na mata e descobrem as belezas e curiosidades do lugar. Primeiro a chapada bem plana coberta por campos naturais. Depois, uma forte rampa rica em água e vegetação densa de mata ou serradão. Essa rampa é cortada por um degrau muito acentuado que forma uma série de abrigos naturais, a casa do homem pré-histórico. Na verdade, o que existe aqui é o cerrado na sua forma mais plena. Bastante água, frutos comestíveis, inúmeros abrigos naturais, animais silvestres. rios e riachos, ricos em peixes. E foi exatamente por essas qualidades que o homem primitivo escolheu o coração do Brasil para morar. [Música] [Música] Esses abrigos naturais foram testemunha das primeiras ocupações humanas do serrado há mais de 10.000 anos. Agora vamos entrar no abrigo das araras. Essa região aqui de Serranópolis, no sudoeste de Goiás, tem o mais rico patrimônio arqueológico, não só do Brasil, mas de todas as Américas. Quer dizer, uma grande concentração em abrigos e grutas de vestígios do homem primitivo brasileiro, do homem das cavernas do Brasil. Nós estamos aqui no abrigo das Araras, onde o professor Altair Sales Barbosa começou a fazer escavações em 1975. Altair, como é que foi esse trabalho aqui nessa região de Serranópolis? Bom, a região de Serranópolis reúne eh condições ambientais que favoreceram a ocupação humana aqui na região por um período em torno de 11.000 anos. Nesses abrigos acontece uma coisa excepcional, a existência de um microclima interno que permite a preservação de material que não se repete em nenhum outro local também do Brasil e da América. Durante nossas gravações na Gruta das Araras, chegaram dois grupos de visitantes e o professor Altair explicou para os jovens. os primeiros índios que chegaram no interior do Brasil, no interior da América do Sul, eles acamparam aqui nesse local. Quer dizer, para vocês terem uma ideia do que que é 11.000 anos, quer dizer, o Brasil foi descoberto em 1500. Da descoberta do Brasil até agora, só tem 500 anos. Esses índios estavam aqui 10.500 anos antes de Cabral chegar. A área foi ocupada por sucessivos grupos humanos e quem chegava aqui deixava sua marca. As pinturas rupestres de Serranópolis formam um conjunto belíssimo de paredes que encantam os visitantes e ajudam os arqueólogos a conhecer um pouco mais da vida dos homens daquela época. Como tinha comido de abundância, eles não precisavam e esgotar o tempo todo procurando alimentos. Eles tinham horas ociosas. hora de folga. E essas horas de folga motivava eles a criatividade. Então eles se tornavam mais criativos. É aí que eles começavam a pintar, né, a colocar. E o que que eles pintavam? Eles pintavam aquilo que tinha na imaginação deles, quer dizer, o dia a dia deles, o cotidiano deles, o mundo deles. O material usado para pintar era encontrado na própria região. Óxo de ferro ou de alumínio, carvão e misturado com gordura vegetal ou animal, dá uma tinta de excelente qualidade. Por isso, as pinturas ficaram preservadas desde 12.000 1 anos atrás, até os dias de hoje, essas pinturas rupestes aqui são especiais, são únicas, né, e marcam, enfim, uma região como Serranópolis, não é isso? Marcam, marcam uma região como Serranópolis e especialmente nessa nesse abrigo aqui, é um abrigo que é ocupado e utilizado pelos citacídios, né, papagaio, periquito e principalmente arara para se acasalarem, fazerem seus ninhos. Daí o nome desse local ser batizado com o nome de abrigo das araras. [Aplausos] [Música] A pintura servia para reproduzir a realidade. O homem não reconhecia ainda como arte. Tanto que às vezes chegava a pintar por cima das gravuras mais antigas. Aqui nós temos o corpo de um animal. Aqui nós temos as duas patas traseiras. Aqui temos o corpo dele, provavelmente um animal. Em cima desse animal nós temos figuras de pés, né? Pés e figura de réptilo. Um outro animal já tem sobre o sobre esse animal. Uma fase mais recente, portanto. É. E o que significa que essas pinturas foram feitas em épocas diferentes. Desde que nasci, meu pai é proprietário da área, né, da terra. Chegava na fazenda, o primeiro ponto que eu lembrava de levar um amigo, uma colega, era trazendo nesse local para ver as pinturas. Só que realmente jamais. Eu imaginava que isso aqui era pintado por um homem primitivo, um homem da, né, mais antigo. Atualmente você faz aqui um trabalho com grupos de visitantes, um trabalho ligado a ao ecoturismo, né, apresentando esse patrimônio pras pessoas que chegam de fora, né? A área é nossa h 33 anos, né, a terra, mas o patrimônio histórico somente da nação, de todos nós brasileiros, né? Mas como a gente tinha aquele amor desde criança de não tocar nas pinturas, de não destruir, a gente começou a perceber algumas pessoas que vinham e estavam escrevendo nomes por cima e tal. Aí a gente resolveu proteger mais isso aqui, né? A fechar, fazer um controle de visitação. Existe um convênio atualmente com a Universidade Católica de Goiás, não é isso? Isso é esse convênio, né? Desde que a gente teve essa ideia, né, de eh fechar a área e tentar proteger o máximo, a gente buscou um apoio, né, a Universidade Católica. É um acervo de pinturas rupes muito rica que nós temos que preservar essa cultura, né, e deixar registrado paraas futuras gerações. [Música] Além das pinturas rupestres, esses antigos índios faziam petroglifos, incisões na pedra, verdadeiras gravuras. Nesse local, aproveitavam também a pedra para afiar seus instrumentos. Quando a rocha é dura, né, nós observamos aqui, quando a rocha é dura, eles utilizavam esse espaço para fazerem as pinturas. Quando a rocha é mole, como aqui, eles utilizavam esse espaço para fazerem os petroglifos, né? A importância de Serranópolis está no grande número de abrigos ocupados por mais de 550 gerações que deixaram restos de sua ocupação de forma bem marcante. Na superfície a gente encontra material mais recente e à medida que se escava aparecem vestígios mais antigos que nos contam a vida do homem na pré-história. É como se fosse um livro que tá contada a história de 11.000 anos. Cada centímetro de terra que a gente tira é como se fosse uma página de um livro que a gente tá abrindo e lendo, aprendendo a história desse homem que viveu aqui. No Museu Histórico Francisco Hório Campos de Jataí, estão organizados objetos encontrados em toda essa região de Goiás. São as três fases da ocupação humana divididas em tradições. Segundo a corrente americana de arqueólogos, a primeira fase é chamada tradição Itaparica, que vai de 11.000 anos a 9.000 anos atrás. Nessa época, o homem lascava a pedra e um instrumento característico era este aqui, em forma de lesma. Depois veio a tradição Serranópolis de 9000 até 1000 anos antes do presente. A tradição Serranópolis, uma das características dela é a utilização de moluscos de água doce na alimentação. Esses moluscos, né, em função do aumento da temperatura e do aumento da umidade nessa época, se multiplicaram em grande quantidade na região. Uma outra característica importante dessa fase é a utilização dos anzóis trabalhados em ossos e ponta de arpão também trabalhado em ossos. Além dos utensílios de caça e pesca, o homem também confeccionava adornos, colares feitos de ossos, placas de tatu e até de dente humano. A última ocupação humana dentro dos abrigos se caracteriza já pela utilização da cerâmica pequena escala e pela utilização de elementos vegetais domesticados como milho, amendoim, cabaça e uma série de outros elementos vegetais que eram incorporados na dieta do dia a dia. [Música] A gente tem uma sensação como se estivesse voltando no tempo, porque a gente tá entrando de fato na casa do homem primitivo, né, realmente aqui não só era utilizado como residência, como habitação, mas também como centro cerimonial. Determinadas épocas do ano, esse abrigo aqui propiciava a reunião dos diversos bandos que em determinada época saíam à cata de alimentos e na época da estação chuvosas se reunia nesse local aqui. O homem primitivo vivia em família e já conhecia o fogo. Mas nessa época remota, o homem, sem muitos recursos, tentava sobreviver. começava a confeccionar seus instrumentos de defesa e de caça. Com o tempo, prendeu a fazer a cerâmica com a argila da própria região. Superando doenças e os perigos da mata, o homem se instalou definitivamente no cerrado do Brasil, deixando seus vestígios para as futuras gerações. O seu Meco foi o descobridor de todos esses sítios arqueológicos aqui da região. Seu Meco, como é que foi? O senhor é aqui da região? já conhecia esses, enfim, esses locais há quanto tempo? Bem, eu sou da região e como eu gostava muito de andar pelos matos, sempre eu encontrei esses sítios com vestígio do homem primitivo e sempre me preocupou. Eu tinha vontade de saber se isso é coisa de agora ou se era mais antigo e resolvi fazer um levantamento desse sítio e levei ao conhecimento da ciência. Depois do abrigo das araras, voltamos à pousada para tomar fôlego em mais uma empreitada. Apreciando a paisagem do serrado, vamos desvendando os segredos da pré-história no Brasil. Nessa região de Serranópolis, o serrado tem manchas de solo muito fértil. Aqui, por exemplo, a gente pode ver matas subúmidas que acontecem nesse tipo de solo. Antes das fazendas, os últimos habitantes que viveram aqui, os últimos índios que moraram nessa região, faziam suas roças de milho e mandioca aqui nessa planície rica. E agora a gente vai dar uma descida até o córego do Muquem, onde existem vários abrigos do homem pré-histórico. [Música] Quando a gente chega aqui a esse abrigo sobre o córrego do Moquem, a gente percebe que ele não era um local de moradia, mas sim um local de passagem, um local de descanso e com água bem próximo. Essa cascata que despenca sobre a boca do abrigo deu nome ao lugar Gruta Vel do Moquem. เฮ [Música] No trabalho de campo do arqueólogo existem várias surpresas. A natureza pode ajudar, como também atrapalhar. Um bom exemplo foi o que aconteceu no Parque Nacional da Serra da Capivara, sul do Piauí. Em 97, as chuvas causaram um desabamento de parte de um abrigo. Do solo, surgiram algumas urnas pré-históricas. uma espécie de sepultamento do homem primitivo. Imediatamente a equipe da arqueóloga Nied Guidon entrou em ação. Retiramos oito sepultamentos que foram completamente engessados, porque lá no local não havia tempo para fazer essa escavação, que é muito demorada. E agora aqui, eh, nós estamos então escavando para recuperar os ossos, para estudar a posição em que eles estavam enterrados. E esses ossos depois então são entregues ao antropólogo físico que faz a sua análise e adapatação. Com esses fragmentos vegetais encontrados, nós depois podemos tentar identificar a espécie e pode-se inclusive saber e a época do ano em que foi feito o sepultamento pelo tipo de vestício que a gente encontra. É impressionante a conservação dos esqueletos. Esses foram enterrados em posição fetal. Alguns objetos são encontrados junto com o esqueleto, como oferendas de um ritual. Em casos mais raros, encontra-se ainda restos de cabelo e até tendões humanos de milhares de anos. Outros achados impressionantes estão em Serranópolis, sudoeste de Goiás. Nossa equipe acompanhou o arqueólogo Altair Sales Barbosa até a gruta do Diogo, uma das mais ricas em vestígios pré-históricos. Este abrigo é um testemunho das primeiras ocupações humanas no centro da América do Sul. A Gruta do Diogo reúne imensa quantidade de vestígios dos grupos das 550 gerações que usaram esse lugar como morada. Por todo o lugar em que a gente anda, aqui na Gruta do Diogo, encontra restos de fogueiras, cerâmicas, instrumentos de pedra, adornos e esqueletos. Aqui foi encontrado o mais antigo esqueleto humano de todas as Américas. Esse importante achado arqueológico foi chamado de homem da Serra do Cafezal, que era o antigo nome aqui da região de Serranópolis. O professor Altair Sales Barbosa começou as escavações aqui em 1975, né, Altair? Como é que foi trabalhar no início de 96 e encontrar esse esqueleto humano? Desde 1975 estamos escavando a região. Já havíamos encontrado uma série de esqueletos, mas todos com datações recentes. A descoberta desse esqueleto é muito importante paraa antropologia e paraa arqueologia americana de maneira geral. Não só possibilita a gente entender os aspectos ideológicos da cultura, mas também facilita a compreensão das origens do homem americano. Esse esqueleto de 11.000 anos está mantido em condições especiais no Museu Histórico Francisco Honório Campos de Jataí. E aqui nós temos uma parte do crânio, aqui nós temos algumas partes da vértebra e aqui nós temos outras partes do esqueleto. Embora fragmentado, o esqueleto foi encontrado completo na região de Serra Nova. [Música] A descoberta surpreendeu a equipe. O arqueólogo Rui foi quem encontrou os primeiros ossos. E aí, a emoção? A emoção é muito grande, é é indescritível. A expectativa numa escavação é sempre você encontrar na próxima pincelada alguma coisa, alguma coisa realmente um esqueleto, uma peça que vocês estavam no nível mais profundo, né? No último nível praticamente da escavação, a 2 m de profundidade já chegando a 11000 anos até. Você sabia que era importante aquele acado. Ah, sim, perfeitamente. Nunca havia sido encontrado nada àquele nível. perceber logo que era um esqueleto humano. Olha, de momento não. Quando quando passei o pincel e saiu a primeira falange, primeiro pedacinho de osso que foi identificado depois como uma falange do pé, passei para o professor Altair e ele falou: "É humano, aí foi alegria geral. Aí realmente é é é bom demais. E não são só os arqueólogos que ficam emocionados. Veimer, jovem fotógrafo da região, que registrou a escavação, não esquece jamais a descoberta. Creio que a mais importante fotografia tenha sido a do homem da Serra do Cafezal. Eu percebi que era um que seria um fato histórico, né? Um fato que enriqueceria a história de nosso estado e do nosso Brasil. Então eu me senti privilegiado por estar naquele momento. O trabalho do arqueólogo é descobrir em detalhes a cada etapa das escavações, como vivia, o que comia, como se comportava o homem pré-histórico, na verdade, descortinando a história dos nossos ancestrais. Nós encontramos muitos moluscos, pedaços de de de coquinhos, né, mostrando realmente que ele já trabalhava isso, já comia isso, usava a ferramenta de pedra para quebrar. No momento, por exemplo, vocês estão aqui num outro corte, né, em camadas superiores, encontrando inclusive cerâmicas, né, em perfeito estado, né, nós estamos escavando esta área agora e estamos encontrando aqui eh grande quantidade de material lírico, material cerâmica. eh material de cordoaria, trançados como esse que parece que começa a aparecer aqui. É uma volta ao passado, né? Eu acho que de repente nós estamos conhecendo o nosso o nosso passado, conhecendo o o homem brasileiro. [Música] É muito comum você ler notícias de arqueólogos que encontraram fragmentos de, enfim, algum vestígio de ocupação, mas uma parte apenas para depois recompor o todo, né? E aqui na região de Serranópolis vocês têm o conjunto, não é isso? É verdade. Nós temos vestígios mais para oeste, por exemplo, em Rondônia, em Mato Grosso, mas de forma esporádica, como você mencionou. O conjunto mais bem definido que indica os primórdios da ocupação humana no interior do Brasil é encontrado aqui em Serranópolis. É uma cultura muito bem adaptada ao serrado e a partir daqui ela foi colonizando todas as áreas de serrado do território brasileiro, cerca de 2 milhões de km qu, primeiro em Goiás, depois Tocantins, atingindo posteriormente os tabuleiros do Nordeste. A teoria aceita pelos americanos é de que o homem chegou às Américas pelo estreito de Bering há cerca de 20.000 anos e foi aos poucos se deslocando para o sul. Por isso, essa corrente não aceita achados mais antigos do que 12.000 anos para o Brasil. O rolo, a briga, a dificuldade está realmente em que a tradição americana não quer aceitar datas para América do Sul maiores do que 12.000 anos. Quer dizer, isso está dentro da teoria deles, dos dados que eles conseguiram comprovar. Até bem pouco tempo, um grande arqueólogo americano, Alix Erliska, afirmava que o homem só estava no mundo novo há 4000 anos. Em outras palavras, muitos arqueólogos não estão prontos para aceitar que o homem está no Brasil há muito mais tempo. A arqueóloga Nied Guidon segue a linha europeia. Suas descobertas com datações de 46.000 1 anos reforçam a teoria de que o homem chegou às Américas em épocas mais remotas e em locais diferentes. Normalmente se pensa que somente o homem penetrou por Bering a pé pela berinja. Nós discordamos dessa interpretação. Achamos que um continente tão grande como os continentes americanos que vão de polo norte a polo sul devem ter sido povoadas povoado por diferentes vagas. E essas vagas eh tomaram caminhos diferentes. Nada impede que o homem tenha chegado à América pelo mar. [Música] Esta polêmica sobre a antiguidade do homem no Brasil ainda vai durar. Muita coisa está para ser descoberta. Nossos pesquisadores estão desvendando as origens dos ancestrais de nossos índios, aqueles que foram os primeiros habitantes dessas terras. Os sítios arqueológicos brasileiros são uma fonte inesgotável de surpresas para a pré-história da América do Sul. Um simples achado pode mudar toda a ideia que se tem da ocupação da América pelo homem. E nossos pesquisadores continuam trabalhando incansavelmente, percorrendo regiões desertas e de difícil acesso para cumprir a difícil missão da arqueologia, que é revelar os grandes mistérios da história da humanidade. [Música] [Música] [Aplausos] [Música]

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