O Sertão Gótico

O Sesyom3,367 words

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No início dos 700, os primeiros colonos chegaram à Terra que ficaria conhecida como a cidade de Cocossi. Porém, na década de 70 do século passado, a localidade foi abandonada e virou apenas uma cidade fantasma. [Música] Quando eu era criança, eu vivia na capital federal do nosso país. E apesar da maior parte da minha família ser cearense, até então eu não tinha qualquer contato com a vida rural. Na verdade, eu só conhecia prédios e asfalto. Quando raramente nós íamos para um passeio afastado da cidade. Até onde eu me lembro, eu não vi a hora de voltarmos para casa. Porém, meus pais sempre falavam de se mudarem pro Ceará. E a forma como eles falavam com paixão da terra natal já me deixava ansioso por quão bom deveria ser viver naquela nova terra. Até que o dia de ir chegou. Mas como minha mãe tinha medo de avião, a viagem teve que ser de ônibus, uma longa e demorada viagem de ônibus, da qual a maior parte foi atravessando a Bahia por um dia inteiro e parte da noite. Que estado sem fim. Bom, eu não me lembro muito da viagem, mas algo nela me pegou. Olhar pela janela do ônibus causava um sentimento complexo pelo fato de que na maior parte do tempo não havia nada além de finitos campos de mato ou milho seco que deitavam com o vento e hora ou outra uma casinha ou mesmo uma vila bem antigas e meio acabadas. E como eu disse, até então eu vivia num ambiente completamente diferente. Então, encontrar o horizonte vazio e cinzento daquela estrada com nada além de nuvens vagando e um urubu ocasionalmente planando com preguiça pelo céu foi estranhamente inquietante. Havia uma escuridão naquele vazio, um microcosmo do Brasil que remete aos primeiros dias do desenvolvimento do nosso país, quando o que estava além do horizonte ainda era totalmente desconhecido. Existe uma intensidade quando olhamos para as fotos de coco uma espécie de neblina marrom no ar, uma poeira nas casas. A seriedade no fundo das imagens é quase como se elas olhassem pra gente de volta. Eu não consigo evitar a sensação de que algo terrível está escondido atrás daquele mato seco e fora do nosso campo de visão. A estranheza de tudo isso é um mistério que se encontra profundamente no coração de toda pessoa que passa algum tempo nos sertões. Assim, o gótico a que me refiro aqui não é um gênero importado literário, musical ou de cinema transplantado para nossa paisagem. O sertão gótico é uma emanação nascida da confluência entre uma geografia brutal, uma história de violência extrema e uma espiritualidade sincrética e arraigada. Esse é um espaço onde o passado nunca está morto, pois ele nem sequer passou. A natureza aqui é simultaneamente exterior e interior, um todo vivo que se manifesta nas formas físicas e se internaliza com a força dos mitos. Isso tudo tão bem incorporado por Guimarães Rosa em Sertões. Esse passado que não é uma lembrança, mas uma assombração. Impreguina o solo, assombra as ruínas das velhas fazendas e vive na voz dos contadores de causos. Mantém vivos os fantasmas que se recusam a descansar. Essa é a cartografia de um medo brasileiro, um mapa desenhado sobre as cicatrizes de uma terra que se recusa a esquecer. E nesse sentido, eu me sinto como muitos dos homens que transcreveram tão bem esses sentimentos e histórias. Obviamente existe uma diferença entre a habilidade necessária para criar contos maravilhosos, como de Coelho Neto, romances como Ariano Suasuna ou N Leandro e o toque imbecil que eu preciso para escrever meus vídeos bobos. Mas o fio condutor é que todos nós somos profundamente familiarizados com esse cenário de escuridão. Nós vivemos nele. Portanto, eu não sou um escritor profissional, não sou um especialista em terror ou poesia, mas eu também sou um sertanejo. Inferno. >> Cada história que me contam me dizem ser verdadeira. Moça que dançou com alma, outra dançou com caveira, outra dançou com defunto em noite de sexta-feira. >> O horror mais profundo do sertão nasceu da sua própria história. A violência que moldou essa região foi tão extrema, tão repetida e tão entranhada no tecido da vida cotidiana que se tornou mítica. Os massacres, as vinganças e as guerras não são apenas páginas para livros, são feridas abertas, traumas coletivos que continuam no imaginário do povo, fornecendo a matériapra para suas narrativas mais sombrias. São histórias de fantasmas reais cujos gritos ainda ecoam no vento que assobia entre as pedras. Antes dos beatos e dos cangaceiros, antes mesmo que o sertão fosse o sertão, como conhecemos, seu solo foi batizado com sangue. A violência que o define tem raízes profundas, fincadas no próprio processo de colonização. A expansão da pecuária para o interior, a partir da segunda metade do século X7, foi uma guerra de conquista e extermínio. Os povos indígenas, principalmente as diversas etnias tapuia, que habitavam essas terras, foram designados como bárbaros. tanto pelos portugueses quantos pelos próprios índios do litoral. E para a conquista da Terra, uma longa guerra foi travada entre brancos, diversas etnias indígenas e os mestiços que já existiam em grande número. O terror sofrido pelos indígenas nos massacres marcou para sempre a alma do sertanejo, fruto da missigenação entre índios e brancos. Mas não foi apenas o sangue indígena que tingiu o chão. Se os índios guardaram a memória do extermínio, os brancos herdaram a desconfiança diante dos ataques repetinos dos indígenas que surgiam no meio da noite para incendiar as casas e vilas dos colonos, atacando e fugindo sem que as vítimas vissem de onde vieram, ou então nos ataques que faziam de surpresa aos indivíduos, como os inúmeros vaqueiros negros que foram sequestrados por indígenas e levados para serem torturados ou mesmo comidos em rituais de antropofagia. Ao lado dos conflitos entre os primeiros colonos e indígenas, as guerras entre as primeiras famílias portuguesas a colonizar o sertão foi também um grande fator. Terras essas que eram deflagradas por disputas de terras e por honra familiar, pois aqueles homens que viviam ainda uma vida medieval eram combativos, resistentes, românticos, supersticiosos e corajosos, mas também eram mais impulsivos e vingativos, vivendo segundo um código de honra próprio, onde o furto era um crime imperdoável, mas a violência muitas vezes era a solução para as disputas. E guerras, como a travada entre os montes e feitosas na ribeira do Jaguaribe marcaram tanto o sertão que séculos depois inspiraram romances e até filmes. Essa convivência prolongada em um ambiente hostil, marcado por guerrilhas indígenas, ataques de animais selvagens e a presença de criminosos tornou o sertanejo naturalmente desconfiado. Sua vida era cercada por perigos constantes, como emboscadas, ataques surpresa e tiros disparados do meio do mato, o que reforçou sua cautela extrema. A desconfiança se tornou uma característica central do sertanejo. Ele confiava apenas em familiares e compadres. E essa confiança, embora fosse rara, era duradora. Um reflexo disso era a solidez dos negócios na região, firmados muitas vezes apenas com a palavra e mantidos pelo compromisso de honra. Essa violência fundadora foi o pecado original do sertão. A terra sobre a qual se erguem as capelas dos beatos e por onde galopavam o bando dos viiatos, já nasceu assombrada, consagrada com o sangue de seus primeiros habitantes. A memória pulverizada que o vento levanta não é apenas uma metáfora poética, são os ecos dos ossos dos tapoias exterminados que formaram o alicece para o qual toda a história posterior de violência seria construída. Cada novo massacre, cada nova guerra entre montes e feitosas ocorreu num palco já amaldiçoado, um chão que guardava uma dívida de sangue. Em cada sítio emboscadas, das trincheiras, defuntos, dos ossos, ainda se podem ouvir os lamentos dos espíritos que não partiram ou não sabem que deveriam ter ido. É essa dívida que garante que o passado nunca passe e que os fantasmas sempre retornem. >> Naquele momento estava muita gente no local. Se atiraram nas pedras, morriam passando mal. Para ver Dom Sebastião e a loucura de João matou todo o pessoal. A sombra dessa violência custou deixar de existir. Quando a noite caía e o sertanejo se recolhia em sua casa de pedra e cal, a luz trêmula do candeiro. Seu peito não descansava, seus ouvidos permaneciam atentos caso uma onça esturrasse no alto da serra. Som esse que fazia estalar as telhas de seu pequeno refúgio. Também precisava estar sempre alerta para possíveis ataques indígenas que podiam ocorrer a qualquer momento. E quando finalmente os vaqueiros já haviam alcançado praticamente todos os ricões do sertão, domado o animal brávio e aculturado, ao menos em parte, as tribos indígenas remanescentes, novos temores surgiram para marcar aquela terra. Existe um fatalismo inevitável do sertanejo, recriando um panorama em que a expectativa é de uma inelutável tragédia prédeterminada por um místico destino, sempre sórdido e ameaçador. As superstições, as crenças em criaturas folclóricas e a religiosidade aparecem como traços proeminentes do regionalismo nordestino, bem como a crença na fortuna regente das vidas individuais, impedindo qualquer outro sentimento que não seja a resignação. Para o sertanejo, vendo as coisas acontecerem irremediavelmente, sua única atitude é a do fatalista. Não há oposição ao sol que queima tudo. Não há força que empeça a seca tornar-se sempre mais terrível. Tudo deve ser. Não adianta dizermos que a fatalidade não existe. Para o homem do sertão, ela está presente e o castiga. Porém, esse fatalismo não é passivo, mas uma crença na força do destino que deve ser encarada com virilidade. O sertanejo transfere para seu criador a responsabilidade de seu destino. Se põe em suas mãos para que ele o guie. Uma força interior muito grande está por trás de tudo isso. Uma crença muito forte e profunda em algo que virá beneficiá-lo. Tem respeito e devoção a Deus. Porém, esse fatalismo, quando foi somado a um cristianismo popular e as crenças dos indígenas aculturados, gerou graves consequências. ID aceita que existiu dois séculos atrás no sertão do Pageu. Essa história sangrenta teve início quando um grupo composto por aproximadamente 300 pessoas se reuniu sob a liderança de um mamelucoquente que pregava com ardô à volta do rei português Dom Sebastião, desaparecido na África desde 1578. Nas fervorosas prédicas, o mameluco na qualidade de rei dos fanáticos, garantia que Dom Sebastião voltaria do reino encantado, mas antes seria necessário que duas enormes pedras fossem totalmente banhadas de sangue, pois quando o reino fosse desencantado, o monarca voltaria com seu exército e aquela gente gozaria de muitas bondades. Mas para alcançar essa graça, o sangue deveria ser obtido com sacrifício de pessoas e cães. Porque uma vez que fosse atingido o desencantamento, todos os mortos iriam ressuscitar. Os pobres volariam nobres, imortais, ricos e poderosos. E ainda quem fosse preto voltaria à vida branco como a lua. Essas promessas eram irresistíveis se nós considerarmos a marginalização em que vivia aquela miserável gente formada por pobres e por não brancos na época da escravidão. E bem, para os pobres cachorros sacrificados também havia a promessa de ressuscitarem, contudo, em forma de dragões, com a finalidade de engolir os grandes proprietários da época. Deturpando a religião católica, os sebastianistas acrescentaram características indígenas ao culto, lhe dando um caráter sincrético, pois para poder enxergar o reino, os seguidores tomavam uma bebida feita de jurema e mancá, conhecida por eles como vinho encantado. O certo é que dezenas de pessoas e animais foram de fato sacrificados. As crianças eram entregues ao pelos próprios pais. Isso quando eles mesmos não cuidavam de realizar pessoalmente o serviço. Para além de um folclore ou de mera literatura, a pedra do reino representa os feitos de uma colonização excludente e do choque de culturas, reverberando uma pobreza e fanatismo, matériapra para a história dos sertões nordestinos. Aqui a violência foi um sacramento pervertido, um ritual para consagrar a terra com o sangue dos inocentes. Esse evento, além de inspirar obras como a pedra do reino de Ariano Suaçuna, criou arquétipos como Beato, o profeta, uma figura ambígua que caminha na linha tênue entre a santidade e a mostruosidade, capaz tanto de guiar seu povo para a salvação, quanto de levá-lo para o inferno. Ainda muitos outros massacres ocorreram nesses sertões. Dos mais desconhecidos, como quando o governo de Getúlio Vargas bombardeou o Ceará até os mais conhecidos, como quando as forças satânicas da República massacraram o Arraial de Belo Monte ou canudos, como é mais conhecido o reino liderado pelo conselheiro. >> Morreram 100 negros velhos que não trabalhavam mais. Um cão chamado traz cá, vira, volta e cai para trás. Tromba suja e bigodeira. Um cão chamado goteira, cunhado do satanás. Enquanto a história deu ao sertão seus fantasmas, o folclore lhe entregou seus monstros. Um catálogo vivo das ansiedades mais profundas dessa terra, onde se encarnam medos do pecado, da doença, da natureza bruta e da própria morte. Não se trata de criaturas de contos de fadas distantes, mas de presenças que na crença popular rondam as matas escuras, espreitam nas encruzilhadas poerentas e às vezes moram até mesmo na casa ao lado. No século XIX, o sertão era visto com misto de fascínio e repulsa por aqueles que o observavam de fora. Para uns era o repositório de uma autêntica identidade nacional, para outros um outro geográfico e cultural, um território de atraso, violência e superstição, habitado por bárbaros que tanto encantavam quanto aterrorizavam. A estética gótica, por sua vez, sempre flertou com o sublime. Essa vertigem entre o medo e a admiração diante do que é vasto, poderoso e indomável. Nos contos de Coelho Neto, o sertão deixa de ser um cenário e se torna um antagonista, uma força viva que pune, devora e eloquece. É ali que a casa em ruínas, a bruxaria e o morto vivo encontram um novo habitate distante e abrasador. O conto Praga que está na coletânia Sertões é sem dúvidas um dos melhores que eu já li, um dos meus favoritos para toda a vida e que consegue passar tudo que comentamos até aqui, acompanhado ainda daquele charme do goticismo e do sertão oitocentista. Porém, eu gostaria de dar mais destaque para uma obra de mais fácil acesso ao público geral, o romance As Pelejas de Ojuara e sua posterior adaptação para as telas, o homem que desafiou o diabo. Entre as muitas criaturas mágicas que aparecem durante o romance, uma das mais interessantes para mim são os pretos velhos. Nas religiões afro-brasileiras, os pretos velhos formam uma linha de entidades de luz, espíritos de antigos africanos escravizados que retornam para compartilhar sua sabedoria. com seus cachimbos, suas rezas e seus conselhos moles de tempo. São guias espirituais, curandeiros e guardiões de uma memória ancestral. Logo no início da jornada, o encontra três velhos estranhos sentados em volta de uma fogueira. São eles: Chico Rabelet, Miguel Sá e Pedro Bala. À primeira vista, eles parecem cumprir o papel clássico dos sábios que conduzem o herói. Contam histórias, oferecem conselhos e lhe dão uma cela encantada, o empurrando para o caminho da aventura. Mas o texto guarda uma reviravolta. Esses velhos, que pareciam guias benevolentes, pertencem, na verdade, a uma casta de demônios. A narrativa os revela como os demônios familiares de Ojuara. Mentores, sim, porém mentores trapaceiros que o conduzem tanto à glória quanto ao abismo. Há neles uma moralidade difusa, uma espécie de sabedoria torta que confunde luz e sombra. Curiosamente, a adaptação cinematográfica suaviza essa provocação. O filme recua diante do incômodo que a mistura entre o sagrado afro-brasileiro e o demoníaco poderiam causar. Um gesto compreensível, mas que para mim diluiu um pouco da ousadia simbólica do romance. >> Eu sou Chico Rabelê. Esse aqui é Miguel de S e esse é Pedro Bala. >> A gente não é daqui não. A gente veio parar aqui no tempo da escravidão. >> Ô gente, como assim? Quanto tempo faz isso? Mais ou menos 200 anos. >> Tá brincando, homem? Oxe, que conversa é essa? O sertão mágico de Ujuara é povoado por todo tipo de criaturas encantadas, incluindo bruxos e feiticeiras. Mas nenhuma figura encarna o poder feminino primevo e perigoso com tanta força quanto a mãe de Pantanha. Ela é o grande desafio feminino na jornada do herói. O perigo que ela representa remete a um dos mitos mais antigos da humanidade, o da vagina dentada. Essa lenda atravessa continentes e civilizações aparecendo em tribos sul-americanas, nos mitos hindus e nas tradições maiores. Em todas elas, ecoa o mesmo medo ancestral. O temor masculino diante da sexualidade feminina, a ansiedade da castração, o pavor de ser consumido pela mulher e quase sempre a solução é violenta. O herói precisa quebrar os dentes da fêmea mítica, domar essa força indomável para torná-la inofensiva, aceitável e domesticada. No romance, os mentores demoníacos alertam ojuara sobre a mãe de Pantanha e sua xiranha dentada, que só morde na escuridão. Ainda assim, eles oferecem um conselho. Em vez de pau, use o kengo, se possível rapadura. Em outras palavras, use a cabeça de cima e não a de baixo. E é justamente com uma rapadura ligeiramente talhada que o herói vence o mal. num gesto que resume uma das virtudes mais preciosas do sertanejo diante do desconhecido, o improviso. >> Rapadurinha boa da gota serena. Ainda há muitos seres que habitam as estradas poerentas, as encruzilhadas silenciosas, os casarões abandonados e as ruínas espalhadas pelos sertões, mas infelizmente não cabem todos aqui. Ainda assim, seria impossível deixar de fora ele ou coisa ruim, o próprio diabo, tomando como base mais uma vez o nosso herói trágico. Antes de enfrentarmos o diabo de Ojuara, porém, é preciso conhecer o diabo do sertão. O imaginário popular, ele está longe de ser apenas uma figura teológica do mal absoluto. Ele é um personagem recorrente, quase um vizinho incômodo, uma força da natureza com quem se pode negociar, disputar ou com um pouco de sorte até mesmo enganar. Ele atende por muitos nomes. Cão, bicho preto, coxo, cramunhão. É um mestre dos desfaces, um ilusionista experiente, mas o traço mais marcante de sua personalidade folclórica é, paradoxalmente, sua falibilidade. A tradição do diabo logrado ou diabo enganado é tão forte que o flocorista Câmara Cascudo a reconheceu como uma categoria própria dentro dos contos populares. Nesses relatos, a astúcia humana vence o poder infernal e a gargalhada se torna o mais eficaz exorcismo. O diabo que ojuara se propõe a desafiar é herdeiro direto dessa tradição. Ele não é apenas uma abstração metafísica, mas uma presença física enraizada no chão do sertão. Um adversário digno de um herói de carne e poeira. Tem forma e cores brasileiras, misturando o demônio europeu a crenças e divindades locais. é o resultado de um secretismo profundo, onde o inferno se pinta de sol e mandakaru. A adaptação cinematográfica do livro captou essa brasilidade com engenosidade. O diabo aqui chamado de cão miúdo, pode ter uma aparência mais pitorisca, mas ainda representa o mal absoluto, aquele que persegue o que julga ser seu e faz o pobre cabôclo sofrer, suar e até desejar a morte. Mesmo assim, como mandam as boas histórias de cordel, o diabo acaba logrado. Vencido pela esperteza do homem comum. Esse herói disfarçado de matuto que ri do perigo e engana o próprio inferno com um sorriso de canto de boca. >> A não ser que tu queira a companhia do coisa ruim, porque ele vai atrás do que dele >> e eu tenho medo de nada. Eu sou o Joara. >> Ó, que saudade do luar da minha terra. Pradeando lá na terra folhas secasão. Esse no arcade tão escuro, não tem aquela saudade do luar naão. >> Talvez tenha sido esse o mundo que eu vi pela janela do ônibus. O mundo que em seu princípio foi banhado em sangue e assombrado por fantasmas, os mesmos que um dia inspiraram os cantadores e os contadores de causas. Mais tarde, esses ecos sombrios também chegaram aos intelectuais, que souberam escrever com maestria sobre esse ar de mistério e medo que ainda paira sobre a terra brávia, distante e quase esquecida dos sertões. [Música]

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